terça-feira, 12 de julho de 2011

ALÉM DA NOVELA - ESTRELA GLORIOSA

ESTRELA GLORIOSA


Nos primeiros dias de maio, quando a Rede Globo anunciou a estréia da novela Vale Tudo no horário das 8, acenou aos telespectadores com uma trama realista, movimentada e que tinha como principal característica um alentado naipe de vilões como personagens principais em vez dos heróis românticos que costumam rechear o horário. Passado um  mês da estréia, a promessa se cumpriu – a novela, até agora, mostrou-se ágil e cativante, mas o maior trunfo não é o enredo ou o perfil dos personagens. O que há de melhor em Vale Tudo é a atuação de uma atriz que, embora exibisse talento em novelas anteriores, vem se surpreendendo a cada novo trabalho que faz na televisão. A atriz é Glória Pires, uma carioca de 24 anos, atualmente lembrada como a cruel, mentirosa e salafrária Fátima, personagem capaz de roubar as economias da própria mãe ou furtar o namorado da melhor amiga em troca de ascensão social como modelo fotográfico.


A Fátima criada pela atriz é uma rainha do mal sem majestade – assim como Glória Pires é a soberana sem pompas entre as atrizes de televisão. A atriz não incorpora ao personagem nenhum dos estereótipos dos vilões das telenovelas – não faz cara de malvada, gestos de bruxa, nem dá risadas sinistras -  e assim mesmo consegue passar toda a vilania que a história lhe atribui. Ao gravar os primeiros capítulos de Vale Tudo, Glória teve medo de que, após a estréia, fosse alvo de agressões nas ruas, como é de hábito com atrizes que desempenham papéis de mulheres más. Tal não aconteceu e pode-se apostar que não acontecerá -  a atriz dá a seu personagem uma gama tão vasta de nuances que faz com que se enxergue muito mais que um  simples escroque. Fátima é às vezes uma jovem comum, bonita e com aspirações típicas de sua idade, a quem se pode até perdoar fraquezas morais. Em outros momentos, ela parece ser vítima das pessoas e das circunstâncias. Mesmo levando a cabo seus planos escusos. Fátima deixa a entender, às vezes, com um olhar ou um gesto, que no fundo não aprecia o que faz. Para compor um personagem tão complexo, é preciso mais que um bom roteiro ou diálogos bem construídos: é preciso uma atriz de muito talento.

MACETES – A atuação excepcional de Glória Pires em Vale Tudo não é apenas uma vitória pessoal da atriz. Ela traz em seu bojo a confirmação de que hoje, por mais que o contestem ou tradicionalistas da arte dramática, existe um novo tipo de ator, que deve ser visto e avaliado por critérios próprios – o ator de televisão. Em seus dezesseis anos  de carreira, Glória, à exceção de uma rápida passagem por uma peça infantil em 1979 – em que não chegou a terminar a temporada -, nunca pisou num palco teatral e nem pretende fazê-lo tão cedo. “Eu praticamente nasci na televisão, conheço os seus mecanismos e macetes e descobri que ela tem uma linguagem própria”, ela diz. É justamente nessa nova raça, a dos atores de TV, e não no universo amplo da milenar arte teatral de se representar, que Glória afirma o seu grande talento.

Atuar em teatro, em cinema e em televisão não representa três faces de um mesmo cubo. O palco, cede o ator está em total intimidade com o espectador, exige voz alta, gestos largos – capaz de serem ouvidos e vistos na última fila da platéia – e uma interpretação em que se programa e se mexe todos os músculos do corpo e que não admite erros, pois não se pode repetir a cena. O cinema – no qual Glória já fez quatro incursões, entre elas a do flme Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos – possibilita uma ampla gama de truques, mas a tela grande onde é reproduzido e o olho mecânico da câmara exigem que o ator esteja a cada detalhe de seu corpo e de sua atuação. A televisão se guia por critérios diferentes – a tela é pequena, e o espectador tem domínio sobre ela; a imagem apresenta uma certa frieza em relação à imagem do cinema, uma desvantagem que deve ser compensada pelo impacto do que é apresentado; e o recurso do close, ou aproximação máxima de imagens, é amplamente utilizado. Na televisão, o ator entra na sala do espectador. Nela não há a cerimônia de se ir ao teatro ou ao cinema: o ator está ali, num eletrodoméstico em meio à intimidade do lar.

OFÍCIO – É justamente o aprendizado desse mecanismo da televisão que possibilitou a Glória Pires multiplicar seu talento ao longo das onze novelas, além de várias minisséries e especiais, de que já participou. Como Jack Nicholson no cinema, ela parece saber exatamente o ângulo e a aproximação com que a câmera a enfoca, e sabe tirar o melhor proveito disso. Quando Fátima mente a amigos e conhecidos  sobre seus antecedentes, por exemplo, dizendo-se de família rica quando na verdade tem origens modestas, Glória sabe como fazer seu personagem representar um segundo personagem sem em nenhum momento se tornar caricata. Glória subitamente se arma dos olhares, sorrisos e gestos certos, sempre sóbrios, e lá está Fátima representando o que gostaria de ser.

É possível que, num palco de teatro, Glória não demonstre a mesma competência do que no vídeo. Acusá-la de má atriz por isso, no entanto, seria exigir dela que conhecesse um ofício ao qual não se dedica. Fátima se recusou a ir ao enterro do próprio pai, o pianista de boates Rubinho (Daniel Filho) – fulminado por um enfarte no capítulo de quinta-feira passada - , apenas para manter diante dos amigos a farsa de que é filha de um músico famoso de Hollywood. Se fosse mostrada num palco, a cena certamente perderia parte da alta tensão dramática que a ela foi conferida pelos recursos da televisão. A verdade é que achar que o teatro é a única escola que forma bons atores não passa de um tolo preconceito. Preconceito contra os atores que fazem sucesso na TV, e também preconceito em relação à popularidade, ao imenso público que acompanha novelas. Existe, funcionando a pleno vigor, a escola da televisão, e só se pode elogiar Glória Pires por tê-la cursado com aplicação, ao invés de se dividir entre a TV e o palco, e talvez, não brilha em qualquer dos dois.

ANIMAL INTUITIVO – “Glória é uma das poucas atrizes que me arrepia, ela é um animal intuitivo que consegue transmitir tudo nos olhos”, diz Denis Carvalho, que divide com Ricardo Waddington a direção de Vale Tudo. Essa intuição também é louvada por Regina Duarte, que na novela interpreta Raquel, a mãe de Fátima. “Ela é uma atriz com a emoção à flor da pele”, diz Regina. Raquel é o extremo oposto de Fátima – uma mulher que luta para levar a vida para frente de maneira honesta e que se revolta com as mentiras e falcatruas da filha e dos demais vilões da novela. Regina Duarte, que já foi a “namoradinha do Brasil” em dramalhões de romantismo seríssimo e exacerbado que a TV mostrava nos anos 70, foi também uma das primeiras atrizes a mostrar que o gênero oposto também atrai os espectadores – ao encarnar a escrachada viúva Porcina em Roque Santeiro, uma novela de tipos estereotipados e alegóricos, e sem nenhuma seriedade.

Regina Duarte tem um bom desempenho em Vale Tudo, mas em algumas cenas, em que procura enfatizar seu desespero com a filha ou seu entusiasmo pela vida, tende a repetir os trejeitos da viúva Porcina, de Roque Santeiro, o que se torna inadequado numa novela de tons realistas. Caso sua personagem se desenvolva para o de uma brava e destemida mulher do povo, a exemplo dos papéis representados por Anna Magnani e Sophia Loren no cinema italiano, ela pode dar à novela um tom caricato inadequado. Regina, também uma atriz de televisão por excelência, tem entabulado com Glória Pires verdadeiros duelos de eficiência na linguagem televisiva. Há duas semanas, seu desempenho entusiasmou o diretor-presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, que enviou a Regina um buquê de flores com um cartão elogioso dizendo que a cena que ela apresentou poderia ser mostrada em qualquer palco do mundo.

VÍCIO E VIRTUDE – Com uma experiência bem menor que a de Regina Duarte, Glória Pires dispara na frente da geração de atores formados pela televisão a partir do final dos anos 70. Lídia Brondi, que faz parte desse grupo e que em Vale Tudo encarna a produtora de fotografia Solange – ela divide um apartamento com Fátima, que está prestes a lhe roubar o namorado, Afonso (Cássio Gabus Mendes) – , reconhece a escalada de Glória: “Trabalhar com Glória é muito fácil porque ela joga e segura a bola nas horas certas”. Outros atores do elenco da novela também não poupam elogios. Antônio Fagundes, que vive Ivan, administrador de empresas desempregado que trabalha como operador de Telex e que é apaixonado por Raquel, praticamente viu Glória estrear na televisão: “Quando contracenamos em Dancin’ Days, em 1978, ela era praticamente uma criança, hoje virou uma atriz que com poucos gestos consegue dar o tom certo ao personagem”.

O bom resultado que Vale Tudo obteve até agora deve-se em grande parte ao caráter complexo dos personagens criados pelos autores Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Basséres. Os personagens não são apenas ricos ou pobres, bons ou maus – cada um deles, como convém a uma obra realista, guarda um emaranhado de características com o que se surpreende o espectador. Fátima é a encarnação do mal, Raquel a virtude personificada, mas entre esses extremos há personagens que vivem na corda bamba entre a virtude e o vício, entre a verdade e a mentira, entre a honestidade e a corrupção.
(...)

A própria Glória Pìres é a primeira a vibrar com sua personagem em Vale Tudo e com as possibilidades que ela abre em sua carreira. Pela primeira vez vejo um autor criar um personagem mau e mostrar tão a fundo o seu lado humano, avalia. 

Trecho de matéria publicada
na Revista Veja em 1988

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