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segunda-feira, 20 de junho de 2011

ALÉM DA NOVELA - A MALVADA QUE ROUBOU A CENA

Beatriz Segall despede-se de Odete Roitman brilhando muito mais que a namoradinha do Brasil

A onipotência eletrônica está com seus dias contados: a milionária Odete Roitman, capaz realmente de tudo, vai morrer assassinada com três tiros na próxima sexta-feira. Vai ser o presente de Natal dos novelistas Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères (cada um é responsável por um dos tiros) para os milhões de espectadores que, há oito meses, vêm transformando a telenovela Vale Tudo, atração das noites de segunda a sábado na Rede Globo, no programa de maior audiência do país. Odete é tão má, mas tão má que em seus últimos dias não tem recebido a indulgência nem mesmo de sua criadora, a atriz Beatriz Segall. "Ela é uma grossa", dispara a atriz de 55 anos, a primeira a destruir o mito da burguesa refinada e malvada de seu personagem. Nora do requintado pintor Lazar Segall — ela estudou na Europa e utiliza um português no qual não cabem gírias —, Beatriz sabe muito bem que Odete nunca teve berço, mas um "vernizinho" superficial. "Ela é artificial em tudo, até na distinção. A começar pelos namorados. Escolhe a dedo os gigolôs de pior nível possível." A atriz, porém, não considera Odete Roitman o cúmulo da atrocidade."Ela é fichinha perto dos empresários e políticos da vida real." Beatriz imagina até quais seriam os amigos de Odete se esta existisse de verdade: Paulo Maluf, o ministro Antônio Carlos Magalhães, os empresários Mário Garnero e Mathias Machline e os latifundiários da UDR. "Ela seria amiga também daquele português, o José Lourenço (deputado do PFL), mas nunca o convidaria para jantar em sua casa."

Mas o que deu em Beatriz para criticar a personagem que mais fascina, no momento, o Brasil? Ficou esnobe como Odete Roitman? Jamais. Beatriz é petista desde a fundação do Partido dos Trabalhadores, amargou duras penas quando o ex-marido, o economista Maurício Segall, foi preso e torturado pela ditadura militar e pode ser encontrada num pé sujo tomando um cafezinho — três situações impensáveis na vida de Odete.

Sua modéstia não a deixa admitir que é uma leitora sofisticadíssima, de autores conhecidos apenas por dois ou três brasileiros eruditos. "Ai, meu Deus, só porque falei uma vez em Alejo Carpentier, o maior escritor, para mim, da América Latina, vão me chamar de intelectual? Por favor, me ajude a destruir este rótulo. Gosto de Thomas Mann, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Balzac, ou seja, os clássicos." Um de seus irmãos — é assim que ela se refere aos amigos do peito —, o autor teatral Flávio Marinho, sabe, no entanto, que a amiga devora turminhas de poetas e romancistas desconhecidos de séculos e séculos atrás. "Não, não. O que sou é uma leitora compulsiva. Nos jornais, por exemplo, leio os artigos de quem concorda comigo. Gosto, portanto, de Fernando Pedreira, de Moacyr Werneck de Castro, de Jânio de Freitas, de Ricardo Noblat e, até há pouco, dos artigos de Hélio Pellegrino."

Beatriz vive entre o casarão que foi do sogro Lazar Segall, no bairro paulista de Vila Mariana (ao lado do Museu Lazar Segall), e a cobertura no 14° andar de um edifício da Rua Barão da Torre, na carioca Ipanema. "A construtora deve ter feito uma mutreta para construir um prédio tão alto aqui", diz na varanda com vista para a praia e para a Lagoa Rodrigo de Freitas. Nega até o hábito de freqüentar restaurantes requintados. "Nem vou a estes lugares. Gosto é de comida de qualidade."

Ela se considera preguiçosa e comodista. Mas assim que terminarem as gravações da novela, vai começar os ensaios de Lilian, uma peça sobre a escritora americana Lilian Hellman que estréia em março no Teatro Cândido Mendes, sob a direção de José Possi Neto. E encontra apenas dois pontos de identidade com Odete Roitman: a paixão por Paris e o horror à falta de educação do brasileiro que desrespeita o trânsito ou fala alto em restaurantes.

Por incrível que pareça, Beatriz Segall, mãe, como Odete, de três filhos — o cineasta Sérgio Toledo, 32 anos; o artista plástico Paulo, 24, e o arquiteto Mário, de 29, que mora em Londres com o único netinho Pedro —, define a personagem da novela como uma mãe dedicada e bastante preocupada com os filhos. "Não digo que ela seja boa, mas ela se preocupa muito com Afonso (Cássio Gabus Mendes) e com Heleninha (Renata Sorrah). A psicanálise criou este mito de que a mãe é responsável pelo que os filhos são. E a individualidade deles? Por que Afonso se deixa esmagar e Heleninha foge para o álcool? Ora, se a mãe é prepotente, eles que saiam de casa." Beatriz comenta que seus três filhos, por exemplo, jamais permitiriam que ela fosse prepotente. "Eu tenho três pais. Dou sempre satisfação aos três." Na busca de possíveis identificações entre Odete e Beatriz, os filhos Sérgio e Paulo não vêem mais do que dois pontos em comum. Um deles está no campo da tomada de decisões: as duas não vacilam. "Claro que a Odete opta sempre pelo mal; ao contrário da nossa mãe", disse Sérgio ao repórter Apoenan Rodrigues da sucursal paulista do JORNAL DO BRASIL. "Aliás, caráter é o que não falta a ela", endossou Paulo. O outro terreno de perfeita identificação é o gosto pelo lado prazeroso da vida. "Mamãe gosta de cozinhar, de viajar", lembrou Paulo. "E, principalmente, é muito vaidosa", completou Sérgio.

O público não tem se importado com as maldades de Odete, porque, segundo Beatriz, está fascinado por sua onipotência. "Maria de Fátima (Glória Pires) é também vilã, mas apenas sonha com o poder. Odete chegou lá. As pessoas querem ser Odete Roitman, embora se revoltem com suas atrocidades."

Será que é por isso que, ao contrário do que se pensa que acontece com atores que interpretam vilões na TV, Beatriz só recebe sorrisos e elogios nas ruas? "Não acredito que um ator tenha levado guardachuvada na rua por causa de um personagem". "Antigamente, o ator se vangloriava disso, porque a confusão do público traduzia um trabalho convincente. Discordo. Hoje o público sabe muito bem separar o ator do personagem. Quando me chamam de Odete na rua, por exemplo, nem dou ouvidos. Só atendo por Beatriz." A única vez em que a atriz ouviu um desaforo foi quando interpretava a também refinada e malvada Lourdes Mesquita, de Água Viva. "Eu contava para uma amiga justamente que não sofria hostilidades quando um vendedor de bilhetes de loteria gritou que quem fazia papel de má era má mesmo. Ele me chamou de peste e fiquei com a cara no chão."

Para Beatriz, ainda há outra explicação para a boa reação do público. Num país de "corruptos sem ética, da lei do Gérson, da corrida atrás do poder para uso em proveito próprio, do jeitinho brasileiro", o vilão virou um anti-herói. A transformação não poderia passar despercebida pelo mercado publicitário. Já vai longe o tempo em que o ator José Lewgoy perdeu um contrato para estrelar um comercial de TV ao ser descoberto que era ele o assassino de Miguel Fragonard em Água Viva. Odete está nas rádios vendendo uma revista de lojas comerciais e já recusou dois anúncios para TV. "Um era de um produto que não gostei. Outro era de bebida. E cigarro e bebida não anuncio. Nem me deixo fotografar fumando ou bebendo. É claro que tomo o meu uisquinho, mas não faço proselitismo", diz Beatriz.

Basta dizer que a Caixa Econômica Federal contratou a ladra maior do país, Maria de Fátima, na pele de Glória Pires, para anunciar sua extração lotérica de Natal. Os autores da idéia, o diretor de criação da agência MPM, Fábio Siqueira, e os publicitários Adeir Rampazo e Wanderley Doro, descobriram o carisma da vilã numa pesquisa que elogia Glória Pires como a atriz mais popular do momento. "Eu pensei que depois de Roque Santeiro nunca mais uma novela mobilizaria tanto o país. Mas Vale Tudo é um marco", diz Fábio. Glória Pires tampouco é agredida pelo público por suas maldades. "O público evoluiu. Eu estava em Goiânia esta semana, quando um sapateiro bem humilde me disse que não tinha raiva da Fátima porque era tudo novela", conta Glória. O publicitário Washington Olivetto concorda com a tese de Beatriz Segall de que, num país de tantos vilões, estes se transformam em anti-heróis. "Há ainda os vilões que favorecem uma virada crítica a certos produtos. O produto transforma o bandido em mocinho. E ganha por isso um valor incrível. E o caso da Loteria da Caixa que fez a Maria de Fátima fazer papel de boazinha, ganhar dinheiro honestamente".

Vilã ou não, o sucesso de Odete Roitman deve muito à irrepreensível atuação de Beatriz Segall. A única crítica que se costuma fazer à atriz é a de que sua elegância natural facilita a composição de mulheres burguesas. "O que é fácil, para mim, é interpretar um bom texto", rebate. Um dos bons textos é certamente o de Gilberto Braga, o escritor que levou a atriz de teatro para viver na TV a refinada e malvada Celina de Dancin'Days. A última personagem pobre, brega e baixo astral que Beatriz interpretou foi a mãe de Carmem, na novela Carmen, ano passado, na Rede Manchete. "Foi uma proposta tentadora de renovação da TV, mas quanto ao desenrolar, gostaria de não falar".


Ela não fala também quem matou Odete Roitman. Ricardo Waddington, o diretor da novela, avisa que o assassino só será descoberto no dia da exibição do último capítulo — 6 de janeiro. Beatriz considera a curiosidade "uma morbidez natural de nosso tempo" e se mantém totalmente muda. "Estou à disposição da Globo até para gravar o crime ao vivo, no momento em que o capítulo for ao ar". Resta o consolo de, até lá, conviver diariamente com uma das melhores atrizes do país. Isto já não é mais segredo para ninguém.

AS MALDADES DE ODETE ROITMAN - Durante o tempo em que ficou no ar, Odete Roitman produziu um manual de perversidades. Abaixo, escolhidas pela autora Leonor Bassères, 10 das maiores maldades da personagem:

- Odete envenenou a maionese da empresa de Raquel (Regina Duarte) para prejudicá-la comercialmente sem se importar com a morte de inúmeras pessoas. Ela disse que dois ou três desdentados não fariam falta a ninguém.
- Incriminou a própria filha, Heleninha (Renata Sorrah), por homicídio culposo do irmão Leonardo, quando ela mesma era a responsável pelo acidente de carro que o matou.
- Usou o seu poder de grande anunciante para tentar forçar a demissão de Solange (Lídia Brondi) da revista Tomorrow.
- Forjou um exame de esterilidade para livrar Afonso de uma possível paternidade indesejada.
- Empurrou a vigarista Maria de Fátima (Glória Pires) para um casamento com o filho só para vê-lo morando em Paris.
- Fez um pacto com Maria de Fátima para separar Ivan (Antônio Fagundes) de Raquel.
- Comprou um marido para a filha Heleninha.
- Induziu Ivan a fazer um suborno e chantageou Raquel com ameaça de colocá-lo na cadeia pelo crime.
- Participou de uma negociata eleitoral em Póvoas exigindo 51% das ações do negócio imobiliário que Marco Aurélio (Reginaldo Faria) armou com o candidato a prefeito do lugar.
- Maltrata todos os seus empregados, aos quais se recusa a pagar a URP garantida por lei.

Por Apoenan Rodrigues e Marcia Cezimbra
Jornal do Brasil
18/12/1988

quarta-feira, 25 de maio de 2011

ALÉM DA NOVELA - TOM CHIQUÉRRIMO

TOM CHIQUÉRRIMO
Beatriz Segall brilha como Odete em Vale Tudo

Desde que Vale Tudo, a novela das 8 da Rede Globo, estreou, em maio, suas principais coesões têm sido proporcionadas pela trama que envolve a espertalhona Fátima, vivida por Glória Pires e sua mãe, a ingênua Raquel, interpretada por Regina Duarte. Nas últimas semanas um outro personagem, com uma interpretação discreta e segura, vem conquistando um posto de destaque na novela – a matriarca Odete Reutemann (sic), vivida por Beatriz Segall. A milionária e poderosa empresária, que dirige com mão de ferro a Companhia Aérea TCA e ao mesmo tempo manipula a vida dos filhos – a alcoólatra Helena (Renata Sorrah) e o inseguro Afonso (Cássio Gabus Mendes) -, não transparece na tela como uma merca caricatura de mulher rica e má, como costuma ocorrer com as grã-finas de novelas. Beatriz dá vida a uma Odette convincente, que parece realmente pertencer à alta sociedade. Sofisticada, ela vive irritada por ter deixado Paris para voltar ao Brasil. Dominadora, não hesita em abusar do poder que tem para conquistar o que deseja. Nos próximos capítulos, Odete não só comprará a confiança de Fátima como também convencerá a família inteira que ela é a mulher para se casar com Afonso.

A chave do bom desempenho da personagem – à exceção de sua arrogância e mau caráter – são as características que Odete e Beatriz têm em comum. Sem os exageros ou a afetação de Odete, a atriz também é uma mulher culta, refinada e vaidosa. Dividindo-se numa  agenda apertada entre os palcos de teatro e os estúdios de televisão, num eterno corre-corre entre suas duas casas, uma no Rio de Janeiro e outra em São Paulo, Beatriz está sempre impecavelmente vestida. Em qualquer ocasião, faz questão de esconder a idade e cuidar de sua aparência. Nos bastidores da Globo, seus colegas de trabalho são unânimes em afirmar que ela é, sobretudo, uma mulher chique.  “Beatriz é uma das poucas atrizes brasileiras que conseguem dar credibilidade ao papel de rica”, diz um dos autores de Vale Tudo, Gilberto Braga.

Maurício Segall
PRISÃO – Dona de uma vida social pouco movimentada – prefere receber os amigos em casa a sair para noitadas -, Beatriz cultiva pequenas excentricidades – coleciona copos de cristal e pincenê, como revela um dos seus amigos, o jornalista Sérgio Augusto da Folha de S. Paulo. O sucesso da personagem também se deve ao empenho da atriz em acreditar que as maldades de Odete sempre têm algum fundamento, ou seja, a sua capacidade de viver o personagem por completo. “Tenho horror às pessoas prepotentes, mas quando encarno a Odete me convenço de que o que ela está fazendo é correto”, diz Beatriz.

A criação de Odete é um momento de brilho de uma atriz que enfrentou percalços em sua carreira. Quando se casou com o economista Maurício Segall – filho do falecido pintor Lasar Segall  -, em 1954, Beatriz abandonou sua carreira para se dedicar à casa e aos três filhos. Sua volta ao palco só aconteceu treze anos depois. Na época, Maurício e Beatriz, que estão separados desde 1982, compraram o Teatro São Pedro, em São Paulo. Enquanto ele cuidava da produção, ela atuava nas peças. Em 1970, um golpe pegou o casal de surpresa. Maurício foi preso por motivos políticos – era ligado à Ação Libertadora Nacional -, passou um ano na cadeia e foi torturado. Beatriz assumiu a direção do teatro e cuidou dos filhos sozinha. “Ela foi uma mulher muito corajosa – na primeira semana em que estive preso ela nem sequer sabia se eu estava vivo, mas enfrentou tudo com força e serenidade”, lembra Maurício, de 62 anos, que hoje se dedica à direção do Museu Lasar Segall, que abriga as obras de seu pai, em São Paulo.

Atriz consagrada, com quase trinta anos de carreira, Beatriz é uma profissional disciplinada e meticulosa. Detesta chegar a uma gravação sem ter decorado suas falas e, no teatro, costuma cuidar pessoalmente de cada detalhe da produção. “Sou muito exigente com meu trabalho, meu julgamento pessoal é anterior a qualquer crítica do público”, diz a atriz. Tal empenho já lhe rendeu muitos momentos de brilho em sua carreira. Na novela Água Viva, em 1980, ela trocou de personagem no meio das gravações para encarnar Lourdes Mesquita, uma aristocrata má e decadente que ninguém queria interpretar. Beatriz aceitou o desafio e fez de Lourdes o papel de maior sucesso da novela.

Ela é uma mulher frágil e tímida, e eu me surpreendo quando faz papéis fortes como os de Odete e de Lourdes”, diz Sérgio Toledo, 32 anos, um dos três filhos da atriz, cineasta que dirigiu, em 1985, o filme Vera.  Seus dois filhos mais jovens são: Paulo, 24 anos, estudante de Arquitetura, e Mário, 29, arquiteto que mora em Londres. Quando seu tempo escasso permite, Beatriz se entrega a algumas de suas paixões: cantar, tocar piano, dormir até tarde e tomar café na cama. Esses hábitos, que reforçam os ares de afetação na rotina de Odete, ganham um toque de charme quando cultivados por  Beatriz.

Revista Veja
20 de Julho de 1988
Transcrito por Jean Cândido

sexta-feira, 29 de abril de 2011

ALÉM DA NOVELA - COM ODETE, A ARTE DA MALDADE


Enquanto Odete Roitman vive arquitetando maldades, Beatriz Segall, que faz a maior vilã de sua carreira sem perder o bom humor, só tem planos sadios, como montar uma nova peça de teatro e ser dirigida pelo filho cineasta, Sérgio Toledo. Agora, porém, ainda é tempo de dedicação total a "Vale tudo" e à maquiavélica e poderosa empresária, que, ao ser apresentada por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, os autores da novela das oito, pareceu, para a atriz, ser mais fácil de interpretar e foi definida como uma nova Chica Newman, personagem de Fernanda Montenegro em "Brilhante", também de Gilberto.
Se em 1982 Chica Newman foi cruel, sua representante nos dias atuais vai muito mais longe, superando em mil pontos a vilã anterior interpretada por Beatriz Segall no começo dos anos 80, a aristocrática Lourdes Mesquita de "Água viva" — outra criação de Gilberto Braga —, segundo a atriz:

— A Lourdes era uma boba, ligada em valores falsos, que vivia de pequenas maldades.

Beatriz, inclusive, não imaginava que seria tão atingida pela personagem mas, a exemplo de Marília Pera em relação à Juliana de "O primo Basílio", vem sentindo o quanto é difícil encarnar Odete:

É mais difícil do que eu pensava no começo, ainda mais que eu sempre tive a sensação de que as personagens que eu vivi nunca me atingiram. Há uns dois meses, porém, li uma entrevista em que a Marília se dizia assustada com a Juliana a ponto de chorar depois de praticar suas perversidades na minissérie. Para mim, foi uma revelação, porque eu também carrego esse sentimento, só que nunca tinha confessado ou admitido isso. Mas ao mesmo tempo em que não é fácil conviver com a Odete, porque ela tem idéias que eu abomino, estou adorando vivê-la.

Recentemente, a personagem ausentou-se da novela para mais uma de suas viagens à França, onde diz que se sente em casa, voltando após duas semanas — tempo em que Beatriz tratou de fazer pequenas viagens a São Paulo e Campos do Jordão. Fôlego refeito, Odete surgiu mais disposta do que nunca a praticar maldades, a começar pelo plano de derrubar Raquel (Regina Duarte) usando o namoradinho Válter que infiltrou na Paladar. Aliás o desfecho desse episódio, quando Odete consegue dar fuga a Válter livrando-se assim da cadeia, já foi gravado para o capítulo 135: um violento tapa de Raquel no rosto da vilã, que, aliás, logo substituirá Válter por César (Carlos Alberto Riccelli). O tapa, no entanto, é uma punição mínima para Odete, na opinião de muita gente. Entre os boatos que circulam sobre a personagem, há o de que ela não chegará viva até o fim da novela. Beatriz não se surpreende com isto nem questiona essa morte:

Afinal, tudo é permitido aos autores. Mas, se eu pudesse optar, daria para Odete um final sem tragédias e punições. No país dos crimes de colarinho branco, punir uma pessoa como ela seria uma mentira.

Outro ponto importante para a atriz é convencer o público de que é diferente de Odete:

Não sei porque teimam em me querer mostrar semelhante a ela, nas entrevistas que dou. Mas não adianta. Odete e eu somos incompatíveis.

Se a personagem é contra posseiros, a atriz quer a reforma agrária. E enquanto Odete mal suporta as pessoas em geral, sua intérprete é bem-humorada e adora estar cercada pelos amigos, no seu apartamento no Rio ou em sua casa em São Paulo. Nas duas cidades, Beatriz, surpreendentemente, é muito mais admirada do que execrada pelo público:

Muitas vezes encontro gente que concorda com as coisas que Odete diz, que acha que violência deve ser revidada com violência, que concorda quando ela fala mal do Brasil. Isto porque ela satisfaz uma ânsia de gritar do brasileiro — só que de um jeito que eu, Beatriz Segall, detesto — e porque a personagem é verdadeira e bem criada pelos autores.

Quando Gilberto Braga definiu Odete como uma chata para Beatriz, pedindo desculpas porque.a faria assim, ela replicou: "Acho que eu nasci para me ocupar das chatas. Mas tudo bem, porque sempre me deram ~atas muito gostosas de interpretar". Com isto ela se referia às personagens pobres ou rica, mas quase sempre boazinhas, que vem colecionando ao longo de sua carreira na TV. No teatro, ela se prepara para voltar à cena num monólogo, como em "Emily", fazendo o papel de Lillian Hellman. Estar só no palco é um desafio, mas também um prazer:

Coisas fáceis não são para mim. Nos últimos anos sou eu quem escolho o que interpretar, como esse novo texto, que é fantástico, bonito e vai me dar a oportunidade de fazer um bom trabalho.

Fazer televisão e teatro ao mesmo tempo, segundo Beatriz, é de enlouquecer:

O desgaste é enorme, as personagens vivem se interligando e o ator ainda precisa de tempo para ser ele mesmo, para assumir a sua vida real.

Mas é raro ela se dividir assim. Quando queria ser apenas dona de casa e mãe de família, ela não titubeou e deixou o trabalho de lado. Agora, porém, com a carreira retomada há 24 anos, ela diz que só a abandona outra vez quando morrer:

Tenho a maior admiração pela Katherine Hepburn, que aos 80 anos continua trabalhando, linda e maravilhosa. Se eu conseguir o que ela consegue, vou ser feliz demais.

Afinal, com os filhos criados, não e mais preciso renunciar ao trabalho:

Mas ainda assim continuo a ser uma mãezona, embora não me meta na vida deles como faz uma Odete Roitman.

Um sonho, no entanto, ela não esconde: ser dirigida por Sérgio Toledo, que com seu primeiro longa-metragem, "Vera", já alcançou o sucesso. Seus dois outros filhos, Paulo e Mário, são arquitetos, sendo que o segundo mora em Londres, mas não por imposição da mãe, que até diz que não moraria no exterior porque, ao contrário de Odete, se sente 100% brasileira:

Não adianta, eu sou o contrário do que ela é. Em comum com a Odete talvez tenha apenas o fato de ser uma pessoa forte.

QUE FIM DEVE TER A MAIOR VILÃ DE 'VALE TUDO'? COM A PALAVRA, OS ATORES

As vilãs já foram bem mais maltratadas do que Odete Roitman é hoje. Que o diga Beatriz Segall. Uma das mais antigas histórias é contada pela octogenária Henriqueta Brieba, que, na década de 50, só porque interpretava uma mulher ma, recebeu de um ouvinte da Rádio Nacional o presente mais insólito de sua carreira: uma corda para se enforcar. Ela conta:

Com a Marta, da radionovela "A gloriosa mentira", eu fazia misérias. Por isto recebi a forca, junto com uma carta cheia de ofensas, que havia ainda um aviso: caso eu não me enforcasse, o remetente me emprestaria um revólver 45. Mas eu compreendi sua raiva. Tanto que guardo a corda até hoje, como um belo troféu.

De lá para cá, o quadro vem mudando, gradativamente. Fernanda Montenegro assombrou os espectadores com as maldades de Chica Newman nos início dos anos 80, em "Brilhante", mas continuou querida e até mereceu um belo romance no final da novela. Até porque, como diz Tereza Rachel, outra que já viveu grandes vilãs, a maior delas em "Louco amor", há cinco anos, "o público não quer mais bater nos interpretes porque já sabe separar ator e personagem; o que ele faz é cumprimentar pelo belo desempenho". Com Beatriz Segall não tem sido assim? Até o cabeleireiro da atriz tem tido trabalho dobrado com as mulheres que chegam ao seu salão querendo "aquela mesma mecha loura que a Odete usa". Simpatias à parte, ainda há os que têm reações extravagantes e Ivan Cândido é testemunha. Quando fez o papel de um matador profissional em "Roda de fogo", o ator recebeu o telefonema de um fã, que lhe ofereceu dinheiro para matar de verdade Mário Liberato. Sua resposta: "Não posso. O Cecil Thiré é meu amigo."

O destino de um vilão é sempre uma incógnita, às vezes até para os próprios autores. Enquanto continuam os boatos sobre o final de Odete em "Vale tudo", personagens que sofrem com a vilã — e os atores que os interpretam — têm opiniões diversas. Vamos a elas:

- Regina Duarte, a Raquel — "Ela deve ser punida, claro. A Raquel bem que tenta levá-la para a cadeia, em vão, mas isto deveria acontecer no final. Eu própria concordo com essa justiça."

- Glória Pires, a Fátima — "O que a minha personagem quer é que a Odete se dê bem. Assim, seu final poderia ser bela e feliz em Paris, por que não? Mas, na minha opinião, o castigo de Odete deve ser a prisão, para pagar seus inúmeros crimes, já que, nesse episódio da maionese estragada, ela quase se torna uma assassina."

- Cássio Gabus Mendes, o Afonso — " Mãe é mãe e, assim, Afonso não pode querer ver Odete morta. Mas, embora sofra, há de aceitar vê-la punida pelos seus crimes. Eu próprio acho que Odete deve levar dois grandes tombos, um profissional e outro pessoal. Só não sei como isso deve ser feito, fica a critério dos autores."

- Reginaldo Faria, o Marco Aurélio — "Meu personagem é tão aproveitador, tão excuso quanto ela, por isso não há de querer que Odete se dê mal. Marco Aurélio quer é tê-la sempre como uma aliada. Pessoalmente, porém, prefiro não julgá-la."

- Cláudio Corrêa e Castro, o Bartolomeu — "Nos capítulos em gravação ele se torna mais uma vítima de Odete. Isto porque Bartolomeu é muito bom, não compreende a maldade, tem uma dificuldade mental para isso. Já como jornalista e homem vivido, ele acha Odete um charme, alguém que o atrai muito até porque dá boas reportagens. Bartolomeu fareja nela a pessoa carismática, de grande energia. Imagina essa energia ligada ao progresso do País? Pois para ele e para mim, e para a novela terminar com o mesmo realismo que vem mostrando, a Odete não deve receber punição nenhuma — como na vida real. A não ser que a trama dê uma grande virada, apresentando novos fatos que justifiquem alguma outra solução."

Matéria publicada em 16/10/1988
Jornal O Globo
Por Maria Bernardes


fonte: TV Pesquisa - PUC RJ

domingo, 6 de fevereiro de 2011

ALÉM DA NOVELA - BEATRIZ SEGALL

BEATRIZ SEGALL 


Ela se tornou uma das atrizes mais respeitadas da TV na década de 80 depois de transformar em sucesso a vilã mais lembrada da teledramaturgia brasileira. 

Como se não bastasse o enorme sucesso de sua personagem, entre 24 de dezembro de 1988 e 06 de janeiro de 1989 passou também a dominar as rodas de conversas dos brasileiros que tentavam descobrir o mistério em torno da pergunta mais famosa das novelas: "Quem matou Odete Roitman?"

Mas Beatriz Segall não tem este único sucesso em seu currículo. Apesar de menos lembrada hoje em dia, mas no início da década de 80, a atriz emplacou uma outra personagem marcante: Lourdes Mesquita, na novela Água Viva (1980), também de Gilberto Braga. 

Carioca nascida em 1926, Beatriz de Toledo Segall casou-se em 1954 com Maurício Segall, filho do famoso pintor Lasar Segall, com quem teve três filhos. 

Atualmente Beatriz está no teatro ao lado de Herson Capri na peça Conversando com Mamãe, em cartaz no Teatro Leblon, no Rio de Janeiro e também gravou participação na série Lara com Z, continuação de Cinquentinha.

Odete Roitman só apareceu em Vale Tudo no capítulo 29 quando retorna ao Brasil em função de um problema da TCA, empresa que faz parte do Grupo Almeida Roitman. Quando o capítulo foi ao ar na reprise do Canal Viva, o jornalista James Cimino estava ao lado de Beatriz Segall e gravou com ela uma entrevista. 

Assista abaixo esse momento muito especial.